Essi Percipi

A correr e tudo passar

Novembro 7, 2009 · Deixe um comentário

I.

Com eles, outros pedaços de mim
Eles se vão
A partir, deixar-se ir
Sou o amanhã,
o que sou hoje, feito hoje, logo ontem,
para o amanhã.

II.

Mas também sou muito mais o passado,
sou o que já fui, sempre será, estou ali, estão ali!
Nas lembranças, nos feitos, nas outras pessoas
E até mesmo no esquecimento vindo daqueles que estão por vir,
pois sorte que há os que estão por vir, terão o que esquecer,
e o esquecimento é feito dele mesmo.

III.

A água que já correu,
que faz o rio já nunca ser o mesmo,
não parará de correr
Toda a água que já passou é o que já passou
Mas o que já passou já não passa, sempre estará.

Toda a água, sim, está lá, em outro lugar,
sou eu e sempre será: eu e os outros.

E as lágrimas nunca serão perdidas, sempre um novo rio,
a correr e tudo passar.

→ Deixe um ComentárioCategorias: Poemas
Etiquetado: , , , , , ,

Dois tipos de silêncio

Outubro 7, 2009 · 1 Comentário

Só quero uma resposta
pra deitar e depois dormir.
Poder deixar morrer e esquecer
os desejos dos dias que não te via surgir.

Só quero uma resposta
pra dizer bom dia.
adeus.
sou de você.
não dizer-lhe.

Uma resposta, enfim, afinal
olhar pra trás e sorrir e seguir
e volta e meia sorrir e lembrar e sorrir de novo
E lamentar
que no fim das contas não queria uma resposta
queria o silêncio. Um olhar, um sorriso
e o riso e o eterno momento do estou-aqui: já isso me basta. Sou o aqui-agora e não penso no amanhã.
Sou e estou,
sem resposta, também já não a espero, nunca aliás, não há palavras
somente aquele momento e nada mais.

→ 1 ComentárioCategorias: Poemas
Etiquetado: , , , ,

Olhar que não se vê

Setembro 25, 2009 · 1 Comentário

“A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para frente.”

“Es ist wahr, was die Philosophie sagt, dass das Leben rückwärts verstanden werden muss. Aber darüber vergisst man den andern Satz, dass vorwärts gelebt werden muß.”

Søren Kierkegaard (1813-1855), teólogo e filósofo dinamarquês.

Essas fotos foram tiradas num único dia em junho de 2008, em São Paulo. Apesar da técnica precária, foram feitas de maneira muito consciente, a comporem o ensaio “O olhar que não se vê”.

Muita intenção (e que se cumpriu) foi tirá-las sem que a pessoa percebesse que estava sendo fotografada, que havia alguém atrás dela. Queria captar o seu momento de solidão, entrar em seu espaço sem ser notado, sem provocar qualquer interferência.

Parece tarefa simples, visto que eu ia pelas costas das pessoas. É óbvio que, se eu os abordasse de frente, me notariam e o momento se esvairia. Contudo, fotografar se mostrou um desafio, pois usei uma câmera amadora, de pouco zoom, sem lentes.

Desse modo, tive que me dispor a pelo menos dois metros.  E sem ser notado. Foram momentos emocionantes: aproximar-me, às vezes ficar a um metro, fotografar e depois recuar. Tudo foi controlado: passos, respiração.

A apreensão de ser notado e estragar o momento era grande, quase cômica. O que pensariam se me descobrissem? Como eu iria me explicar? A pessoa iria entender?

Mas, a foto se consumando, conseguia captar aquele momento, que queria que fosse silencioso e enigmático. Profundo, de contemplação. Onde só restassem dúvidas: para onde olham? O que pensam? O que sonham, desejam? Como lhes são os olhos? É possível conhecer alguém ou mesmo sabê-la sem olhar em seus olhos? O que se pode comunicar um corpo sem rosto, olhar?

Guilherme Dearo.

→ 1 ComentárioCategorias: Outras Reflexões · Sobre outros textos e autores
Etiquetado: , , ,

Impressões

Agosto 27, 2009 · 5 Comentários

Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos.

- Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa -


Daquele dia claro e ardido
de um céu azul como nunca mais foi.
Do sol bem quente
da água fresca
minha cachorra correndo pelo quintal.
Um dia com calor e risadas.
É disto que me lembro.

De andar por lugares, grandes, desconhecidos
de ver pessoas, grandes, novas, desconhecidas.
De nada entender e ver e andar mesmo assim.
E de adormecer nos braços de minha mãe
e depois acordar na cama, tudo escuro, já quentinho.
E dormir de novo e acordar e dormir.
É disto que me lembro.

Hoje, nos dias que são apenas dias
e dos passeios que são apenas passeios;
hoje, entre um pensamento e outro
lembro-me de quando eu não pensava.

Não lembro meus pensamentos,
lembro a risada, o sol, o quintal, o colo.
Lembro-me.
É disto que me lembro.

→ 5 ComentáriosCategorias: Poemas
Etiquetado: , , , ,

De repente, poesia

Agosto 18, 2009 · 2 Comentários

A inspiração sempre é tema de reflexão e angústia daqueles que tentam compreender o processo de criação literária; e também, principalmente, daqueles que criam. Afinal, de onde vem exatamente a inspiração? Qual a faísca que acende lá dentro e faz nascer um poema? Como nascem os poemas?

Nesse debate, dizem que há dois tipos de poeta. O primeiro aprisiona a poesia no próprio poema, tratando estes como iniciativas da própria poesia. Seria como se o poeta recebesse o poema pronto. Para este, cada mudança racional compromete a verdade do texto. Ele, ao invés de forçá-lo a sair, espera que ele aconteça.

Já o do segundo tipo sabe que, para o nascimento de uma obra, são horas de procura e reflexão. Ele desconfia de tudo o que vem espontaneamente. Esse tipo de poeta se impõe ao poema, trata-o e reconhece-o como fruto de seu trabalho.

Ambos acreditam numa técnica, que lhes funciona. Se para um o total “desarmamento” da razão liberta e permite a escrita, para outro essa só ocorre com a racionalidade. Isso mostra que a “técnica poética”, da onde poderia emergir a inspiração, não é transmissível. Como diz o mexicano prêmio Nobel da Literatura Octavio Paz  no livro “O Arco e a Lira”, tal técnica “não é feita de receitas, mas de invenções que só servem para seu criador”.

Ideias e palavras

Há um episódio muito famoso envolvendo o poeta francês Stéphane Mallarmé (1842-1898) e o pintor Edgar Degas  (1834-1917) , contado pelo poeta Paul Valéry (1871-1945) : intrigado, Degas teria dito a Mallarmé que sempre tinha ótimas ideias, mas que, no final das contas, não resultavam em poemas. Ele prontamente lhe respondeu que poemas não se faziam com ideias, mas com palavras.

Nesse sentido, se um poeta tem “ideologia artística”, digo que a minha é “um poema é feito com palavras, não com ideias”.  E essa frase se identifica muito com o poeta do primeiro tipo, aquele que “espera que o poema aconteça”. Isso porque querer escrever palavras num papel quando ainda são ideias é violentar as palavras, forçá-las a serem ideias, não elas mesmas, com sua unicidade-porém-multiplicidade de sentidos e significados.

De nada adianta querer arrancar à força um poema de seu estado latente, forçar sua saída ao sentar-se na frente de uma folha em branco e ordenar a si próprio: “escreva!”. Pode até sair algo, mas será confuso, embaçado, turvo.

É preciso, sim, deixar as ideias e os sentimentos amadurecerem, assentarem. Após esse período de calmaria, às vezes se resolvem, são absorvidos, se dissolvem na vida. Outras vezes, contudo, de repente, tais ideias e sentimentos anseiam por liberdade. Então, nesse momento, lá do fundo do oceano chamado alma, emergem sob a forma de palavras.

E você diz tudo o que queria dizer, mas não sabia como.

Guilherme Dearo

 Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

(Carlos Drummond de Andrade. Trecho de “Procura da Poesia”, in A Rosa do Povo)

→ 2 ComentáriosCategorias: Outras Reflexões · Sobre outros textos e autores
Etiquetado: , , , , , , , , ,