A inspiração sempre é tema de reflexão e angústia daqueles que tentam compreender o processo de criação literária; e também, principalmente, daqueles que criam. Afinal, de onde vem exatamente a inspiração? Qual a faísca que acende lá dentro e faz nascer um poema? Como nascem os poemas?
Nesse debate, dizem que há dois tipos de poeta. O primeiro aprisiona a poesia no próprio poema, tratando estes como iniciativas da própria poesia. Seria como se o poeta recebesse o poema pronto. Para este, cada mudança racional compromete a verdade do texto. Ele, ao invés de forçá-lo a sair, espera que ele aconteça.
Já o do segundo tipo sabe que, para o nascimento de uma obra, são horas de procura e reflexão. Ele desconfia de tudo o que vem espontaneamente. Esse tipo de poeta se impõe ao poema, trata-o e reconhece-o como fruto de seu trabalho.
Ambos acreditam numa técnica, que lhes funciona. Se para um o total “desarmamento” da razão liberta e permite a escrita, para outro essa só ocorre com a racionalidade. Isso mostra que a “técnica poética”, da onde poderia emergir a inspiração, não é transmissível. Como diz o mexicano prêmio Nobel da Literatura Octavio Paz no livro “O Arco e a Lira”, tal técnica “não é feita de receitas, mas de invenções que só servem para seu criador”.
Ideias e palavras
Há um episódio muito famoso envolvendo o poeta francês Stéphane Mallarmé (1842-1898) e o pintor Edgar Degas (1834-1917) , contado pelo poeta Paul Valéry (1871-1945) : intrigado, Degas teria dito a Mallarmé que sempre tinha ótimas ideias, mas que, no final das contas, não resultavam em poemas. Ele prontamente lhe respondeu que poemas não se faziam com ideias, mas com palavras.
Nesse sentido, se um poeta tem “ideologia artística”, digo que a minha é “um poema é feito com palavras, não com ideias”. E essa frase se identifica muito com o poeta do primeiro tipo, aquele que “espera que o poema aconteça”. Isso porque querer escrever palavras num papel quando ainda são ideias é violentar as palavras, forçá-las a serem ideias, não elas mesmas, com sua unicidade-porém-multiplicidade de sentidos e significados.
De nada adianta querer arrancar à força um poema de seu estado latente, forçar sua saída ao sentar-se na frente de uma folha em branco e ordenar a si próprio: “escreva!”. Pode até sair algo, mas será confuso, embaçado, turvo.
É preciso, sim, deixar as ideias e os sentimentos amadurecerem, assentarem. Após esse período de calmaria, às vezes se resolvem, são absorvidos, se dissolvem na vida. Outras vezes, contudo, de repente, tais ideias e sentimentos anseiam por liberdade. Então, nesse momento, lá do fundo do oceano chamado alma, emergem sob a forma de palavras.
E você diz tudo o que queria dizer, mas não sabia como.
Guilherme Dearo
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
(Carlos Drummond de Andrade. Trecho de “Procura da Poesia”, in A Rosa do Povo)