Essi Percipi

Caim

Dezembro 12, 2009 · 3 Comentários

“Caim”, de José Saramago

O Bom Deus e Caim assassino… ou o bom Caim e Deus Assassino? No novo livro de José Saramago, escritor português e prêmio Nobel de Literatura, ficamos com essa dúvida: afinal, quem é o bom e quem é o mau da história? Porque se por um lado o Velho Testamento mostra Caim como o primeiro assassino, pela lógica do próprio Caim, o assassino é outro…

O livro reconta a história do filho de Adão e Eva que mata seu irmão, Abel, após Deus recusar seus sacrifícios e aceitar apenas os de seu irmão. Revoltado, Caim percebe que o único jeito de atingir Deus, alvo de toda sua fúria e indignação, era matando sua cria, aquele que Ele aceitava e reconhecia, Abel.

A história todos já conhecemos: após o assassinato, Deus condena Caim a vagar pelo mundo convivendo com o estigma de seu crime e, para evitar que seja morto por outras pessoas, aplica-lhe uma marca negra na testa.

O personagem Caim

Caim é irônico, é provocativo, é sarcástico; de até mesmo provocar um sorriso no leitor, que, se não for um religioso fervoroso e já com pedras na mão guardadas a Saramago, vai com ele simpatizar.

Saramago vai aos poucos fazendo com que o leitor passe a senti compaixão por Caim. E acabamos por nos esquecer que ele é um assassino: tal ato, totalmente reprovável, não impede que fiquemos de seu lado e o perdoemos de certa forma: não o absolvemos nem o justificamos, mas o compreendemos.

Isso porque Caim vai revelando apenas qualidades durante sua viagem, que é totalmente marcada por cortes temporais, por idas e vindas no tempo, em “vários presentes”, como o livro toda hora bem lembra, fazendo com que Caim protagonize e vivencie fatos que obviamente não viu nas histórias pioneiras, as da Bíblia.

Ele presencia, por exemplo, a destruição de Sodoma e Gomorra, a ida de Moisés até Deus enquanto o povo lhe esperava ao pé do Monte Sinai, conhece Abraão quando este ainda não tinha um filho com sua mulher e também vê a cena do sacrifício de Isaac por Abraão que estava prestes a acontecer. Este talvez seja o ponto alto do livro, onde vemos um Caim herói, o Caim bom perante a maldade que estava prestes a ocorrer graças à ordem do Deus, Mau:

[...]
“Há uns três, não mais tarde, tinha ele dito a abraão, pai do rapazito que carrega às costas o molho de lenha, Leva contigo o teu único filho, isaac, a quem tanto queres, vai à região do monte mória e oferece-o em sacrifício a mim sobre um dos montes que eu te indicar. O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim.”

[...]
“Chegando ao lugar de que o senhor lhe tinha falado, abraão construiu um altar e acomodou a lenha por cima dele. Depois atou o filho e colocou-o no altar, deitado sobre a lenha. Acto contínuo, empunhou a faca para sacrificar o pobre rapaz e já se dispunha a cortar-lhe a garganta quando sentiu que alguém lhe segurava o braço, ao mesmo tempo que uma voz gritava, Que vai você fazer, velho malvado, matar o seu próprio filho, queimá-lo, é outra vez a mesma história, começa-se por matar um cordeiro e acaba-se por assassinar aquele a quem mais se deveria amar, Foi o senhor quem ordenou, foi o senhor quem ordenou, debatia-se abraão, Cale-se, ou quem o mata aqui sou eu, desate já o rapaz, ajoelhe e peça-lhe perdão, Quem é você, Sou caim, sou o anjo que salvou a vida de isaac.” [...]

Contestando a lógica divina

Caim talvez represente o próprio Saramago, declaradamente ateu e sempre um forte crítico da Igreja Católica, e todos aqueles que questionam o Cristianismo e a existência de um deus de comportamento duvidoso: céticos, ateus, anti-religiosos…

Pois o Caim do livro mata por Deus ter sido arrogante e não ter lhe dado atenção quando precisava; e durante sua viagem questiona e confronta um deus invejoso, rancoroso, vingativo e prepotente. Não entende como um deus pode criar um ser e não deixá-lo viver em paz depois, mas sim com ele competir, dele sentir inveja e dele maltratar por capricho e puro gosto sádico.

Os confrontos tanto se dão em atos de Caim, como o de interferir no   sacrifício de Isaac, ou como o do episódio do Dilúvio e de Noé (não vou revelar aqui o que se dá neste momento, já é o final do livro: é imperdível!); como em embates teológicos, grandes discussões de tirar o fôlego pelo atrevimento e ousadia (nos encolhemos na cadeira, esperamos a qualquer momento pela ira divina a cair sobre a boca desmedida de Caim!):

[...]
“Que fizeste com teu irmão, perguntou, e caim respondeu com outra pergunta, Era eu o guarda-costas de meu irmão, Mataste-o, Assim é, mas o primeiro culpado és tu, eu daria a vida pela vida dele se tu não tivesse destruído a minha, Quis pôr-te à prova, E tu quem és para pores à prova o que tu mesmo criaste, Sou o dono soberano de todas as coisas, E de todos os seres, dirás, mas não de mim nem da minha liberdade, Liberdade para matar, Como tu foste livre para deixar que eu matasse abel quando estava na tua mão evitá-lo, bastaria que por um momento abandonasse a soberba da infalibilidade que partilhas como todos os outros deuses, bastaria que por um momento fosses realmente misericordioso, que aceitasse a minha oferenda com humildade”… [...]

E, no fim, vemos um Caim ainda assassino, a característica essencial de seu personagem, mas que defendeu inocentes, se indignou perante injustiças e mortes desnecessárias. Aos olhos dele, mortes e injustiças causadas por um Deus, este sim Assassino. Já aos olhos do personagem Deus, tudo justificável (mas nada justificado), afinal, sua lógica e seus desígnios são inescrutáveis, e as reles criaturas seres-humanos não merecem tais explicações…

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A chave

Novembro 29, 2009 · 1 Comentário

Trouxeste a chave?

Era isso que perguntaria, talvez, se gostasse de poesia e mais ainda de aplicá-la nas palavras de seu cotidiano, de literalizar as palavras que poderiam sair e soar simples, mas provocativas e loucas e peculiares se vindas do que se passava oculto e particular em sua mente abastecida pelo que lera ontem, anteontem e em outros esparsos dias. E era isso que perguntaria se fosse também de uma objetividade e crueza incomum e destoante de qualquer momento que requeresse meias-palavras, intencionalidades e indiretas. Mas nunca nem mesmo lhe perguntara se gostava de poesia, talvez arriscasse que sim, mais por saber que de certa forma o rótulo de intelectual e ávida leitora lhe caía bem, mas também porque uma vez viu-lhe um sorriso no rosto enquanto falava de poesia, enquanto colocava eu, poesia, e escrever em sintonia numa mesma frase, revelando prontamente, sem pensar muito na conseqüência e nas impressões subseqüentes de tal exposição, que era um poeta, preguiçoso também, pois dissera na ocasião que poesia era coisa de escritor preguiçoso.

Mas ela nunca lhe falara Trouxeste a chave?, aliás, nunca lhe dissera muita coisa, muita coisa muito mais urgente e útil e reveladora, mas sim lhe dissera muito mais, talvez significando a mesma coisa, mas em forma de silêncio omissão recusa espera não-ato. Já tinha sido clara, apesar de às vezes insistir pra se enganar que na verdade era o contrário, que nunca tinha uma resposta e ela lhe era confusa e indecisa e misteriosa. Fora clara no silêncio, no silêncio de nada a declarar simplesmente porque aquilo que dissera nada lhe dizia nem nada lhe significava, mas também no silêncio conseqüente de outro silêncio, do nada que lhe foi dito, do que não lhe foi dito, a reticência pela espera do que deveria ter sido lhe dito mas nunca chegou a ser.

Também havia clareza na omissão, na ignorância do que quer que fosse, porque aquilo simplesmente não lhe interessava nem poderia lhe interessar mesmo que lhe fosse prometida uma mudança radical, então a omissão era a recusa de ser alguma coisa, de falar alguma coisa e agir e pensar e tudo aquilo colocar significados e sentidos onde nunca havia tido significado e sentido e onde nunca poderia haver tais: era preciso cautela com as palavras. Cautela que lhe era pouca e às vezes inexistente, pois se cautela com palavras, econômicas e medidas, nada disso em gestos e comunicação física, sempre tão confusa e ambígua e provocadora dos sempre mais grandiosos e dramáticos mal-entendidos, nos olhares, nos sorrisos, no que as mãos faziam, no para onde os cabelos se movimentavam e provocavam.

Mas também a tentativa dupla e contraditória de colocar e evitar tais significados e sentidos pelo não-ato, pelo ato que se evidenciava mas não se consumava, pelo ato-protesto de não fazer nada como tentativa de provocar alguma ação, tudo pasteurizado numa espera que terminou sem ter visto o fim, simplesmente por ser banal e desperdiçada, por nada ter acontecido justamente porque se esperava que algo acontecesse, porque se esperava que a conseqüência viesse antes da ação e não ver que a conseqüência, pós-ato, na verdade era o pré-ato, era o que deveria ser primordialmente considerado, mas que se transformava em pensamentos e sonhos e abobalhações imaturas e retidas no passado e no que deveria ter sido e não foi.

E tudo confluía naquele momento, às tantas da madrugada, um tanto distante da realidade negra, quente com vento e solitária e depressiva do lado de fora. Tudo confluía nos olhares furtivos e distantes, de um corpo posto à distância justamente para observar e não ser observado, para apagar a linha da direção de seu olhar e poder olhar e pensar e refletir sem demonstrar que ali parado estava a fazer justamente isso, perdido e abobado diante de tal visão, visão que ignorava tal gesto e distância e que estava a ser olhada e que continuava a fazer o que fazia, fosse o que fosse. Mas era também uma distância que só poderia ser exatamente aquilo que era, não poderia ser diferente, só poderia ser uma distância e continuar a ser tal porque a recusa e a eterna espera e a omissão continuavam ali, a compor uma barreira, se consumavam e delineavam exatamente o que ali se via: tal cena de um lado, a viver o seu momento e a rir e a conversar, e o gesto impassível de observar do outro, com uma grande distância no meio.

E durante tais horas foi essa a distância que se postou entre eles, uma barreira que não podia ser transposta, uma porta que não podia ser destrancada. Era um jogo de derrota, que há muito tempo parecia ter chegado ao fim, com uma derrota como desfecho, mas que não terminara, não cessara de percorrer e trespassar cada minuto e cada gesto, cada olhar e cada ação, cada momento junto e cada momento afastado. Ali, distante, a observar, entre momento e outro de breve, rasa e efêmera confluência, composto por talvez uma conversa e alguns sorrisos e alguns olhares que tudo ou nada poderiam significar – novamente a questão da sensível colocação de significados e sentidos –, somente um grande silêncio dava conta de reconfortar e colocar tudo no lugar. Um grande silêncio em meio a um grande caos de vozes e risos e samba, todo o redor com samba e festa, mas a impossibilidade de se ouvir e se entender qualquer coisa quando o olhar era justamente para lá direcionado, com ela e ele e tal momento como o foco, o que se estava tanto a observar afinal.

Sim, o silêncio criado pelo simples não-entendimento, pela impossibilidade de se chegar mais perto, aliás, pela falta de permissão para se chegar mais perto, o suficiente para ouvir e falar, entender. Porque já não havia permissão e brecha, por mais reconfortante e animador que fosse desejar e sonhar o contrário, e que se algum dia houvera tal permissão e brecha, e muito provavelmente houvera, agora, já há algum bom tempo, aliás, mas principalmente naquele momento, já não havia mais. Todos postos distantes, incapazes e impotentes diante do que se consumava aos olhos, em meio a tanto barulho e tantas vozes e tanta música doce e animada e que embalava pra dançar, potentes somente para observar e falar coisas sem nexo e inaudíveis, fingir não se importar e ir lá ver outra coisa, arriscar uma dança, mas sempre sabendo que, ali, talvez às sua costas, talvez à sua direita ou esquerda, algo está acontecendo, algo inexplicável e sem entendimento, inalcançável e que não lhe é de seu pertencimento, algo que lhe ocorre e passa e acontece sem importar-se com sua existência, sem necessitar de sua aprovação ou aval ou consentimento ou compreensão.

E pela rua das quatro da manhã, onde a escuridão já não é mais total, também ainda não há luz, mas somente o leve frio e o vento e alguns pássaros que dão o tom do fim-de-noite que já se anuncia e se despede e logo vem a silenciosa e vagarosa manhã, fica-se apenas o burburinho de pessoas que necessitam falar, que necessitam expelir som, não estão satisfeitas com o que o silêncio pode dizer. E vão se todas, caóticas e frenéticas para um lado, entre pensamentos contidos e falas abruptas, enquanto para o outro lado, vai-se o silêncio.

O silêncio que tudo diz, mas vai silencioso e vagaroso, a cada passo diminuindo, cada vez mais longe, cada vez mais em silêncio, mais inalcançável. E menos entendimento, mais impossibilidade, a distância física que já é grande e uma ainda mais distância etérea, que se consome em cada passo na direção contrária, no contrário de todos os outros, que já se vai, irresoluta, definitiva, resolvida, já ignora todo o resto e vai-se fechada, auto-suficiente, contanto segredos, na verdade bem escancarados, mas um enigma para todos os outros. Um nada misterioso e dispendioso para quem se vai, para o outro lado, caótico e confuso, atado ao barulho e aos outros e à confusão, mas uma existência clara e marcante e barulhenta para quem para e observa, sem nada ver e ouvir, o que se está ali indo embora, compasso risos palavras olhares passos expressão tato, mas um grande silêncio e meio-tom, que por um momento o leva a pensar que na verdade se está ali, adiante, já distante, a andar ao seu lado e a ouvir e a sentir, que os passos são seus, as palavras são suas, mas que logo tudo novamente se cala e se projeta no corpo inerte que observa de um lado e é impulsionado a outro, às quatro e tanto da manhã com leve vento de melancolia.

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A correr e tudo passar

Novembro 7, 2009 · 2 Comentários

I.

Com eles, outros pedaços de mim
Eles se vão
A partir, deixar-se ir
Sou o amanhã,
o que sou hoje, feito hoje, logo ontem,
para o amanhã.

II.

Mas também sou muito mais o passado,
sou o que já fui, sempre será, estou ali, estão ali!
Nas lembranças, nos feitos, nas outras pessoas
E até mesmo no esquecimento vindo daqueles que estão por vir,
pois sorte que há os que estão por vir, terão o que esquecer,
e o esquecimento é feito dele mesmo.

III.

A água que já correu,
que faz o rio já nunca ser o mesmo,
não parará de correr
Toda a água que já passou é o que já passou
Mas o que já passou já não passa, sempre estará.

Toda a água, sim, está lá, em outro lugar,
sou eu e sempre será: eu e os outros.

E as lágrimas nunca serão perdidas, sempre um novo rio,
a correr e tudo passar.

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Dois tipos de silêncio

Outubro 7, 2009 · 1 Comentário

Só quero uma resposta
pra deitar e depois dormir.
Poder deixar morrer e esquecer
os desejos dos dias que não te via surgir.

Só quero uma resposta
pra dizer bom dia.
adeus.
sou de você.
não dizer-lhe.

Uma resposta, enfim, afinal
olhar pra trás e sorrir e seguir
e volta e meia sorrir e lembrar e sorrir de novo
E lamentar
que no fim das contas não queria uma resposta
queria o silêncio. Um olhar, um sorriso
e o riso e o eterno momento do estou-aqui: já isso me basta. Sou o aqui-agora e não penso no amanhã.
Sou e estou,
sem resposta, também já não a espero, nunca aliás, não há palavras
somente aquele momento e nada mais.

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Olhar que não se vê

Setembro 25, 2009 · 1 Comentário

“A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para frente.”

“Es ist wahr, was die Philosophie sagt, dass das Leben rückwärts verstanden werden muss. Aber darüber vergisst man den andern Satz, dass vorwärts gelebt werden muß.”

Søren Kierkegaard (1813-1855), teólogo e filósofo dinamarquês.

Essas fotos foram tiradas num único dia em junho de 2008, em São Paulo. Apesar da técnica precária, foram feitas de maneira muito consciente, a comporem o ensaio “O olhar que não se vê”.

Muita intenção (e que se cumpriu) foi tirá-las sem que a pessoa percebesse que estava sendo fotografada, que havia alguém atrás dela. Queria captar o seu momento de solidão, entrar em seu espaço sem ser notado, sem provocar qualquer interferência.

Parece tarefa simples, visto que eu ia pelas costas das pessoas. É óbvio que, se eu os abordasse de frente, me notariam e o momento se esvairia. Contudo, fotografar se mostrou um desafio, pois usei uma câmera amadora, de pouco zoom, sem lentes.

Desse modo, tive que me dispor a pelo menos dois metros.  E sem ser notado. Foram momentos emocionantes: aproximar-me, às vezes ficar a um metro, fotografar e depois recuar. Tudo foi controlado: passos, respiração.

A apreensão de ser notado e estragar o momento era grande, quase cômica. O que pensariam se me descobrissem? Como eu iria me explicar? A pessoa iria entender?

Mas, a foto se consumando, conseguia captar aquele momento, que queria que fosse silencioso e enigmático. Profundo, de contemplação. Onde só restassem dúvidas: para onde olham? O que pensam? O que sonham, desejam? Como lhes são os olhos? É possível conhecer alguém ou mesmo sabê-la sem olhar em seus olhos? O que se pode comunicar um corpo sem rosto, olhar?

Guilherme Dearo.

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